16.8.06

 

O grande espetáculo da vida

E segue esse ritmado e compassado pequeno modo de levar a vida. E segue esse espetáculo de vida pré-moldada; de partitura escrita e impressa nos encadernados dias do nosso cotidiano comum e igual ao de todos os outros. Pois dormimos e acordamos. Estudamos, bebemos, fumamos. Nossa vida segue em trilhos, mesmo que a gente não saiba onde eles vão dar. Como atores que inventam as falas, mas interpretam um papel escrito desde quando nasceu. É quase um rock, banal, de letras de amor que parecem nunca ter amado. Nossa vida tem caráter enjoativo, previsível, repetitivo, por mais diferente que ela possa parecer.

Aos mais capazes impacientes, resta pular do trem, nem que isso renda os mais suculentos arranhões. Arriscar um improviso harmonioso, mesmo que saia do tom. Pegar a estrada dos pensamentos libertos que se propagam ao encontro inconsciente de outros bons pensamentos. Como se fosse os pequenos encontrões e esbarrões que temos com as notas desafinadas de outras pessoas. As batidas diárias de vagões desgovernados.

Nessas interseções de destinos, compositores do grande espetáculo da sociedade, que saímos do compasso e soltamos nossas próprias melodias. Abandona-se a cartilha de sucessos para fazer o que consciência permitir, a ponto de largar trabalho, canudo, para lucrar uns bons sorrisos. Capaz de noticiar o inoticiável momento de desaparecer e, com isso, perder a chance de ter uma lápide respeitosa no fim de tudo.

Os mais capazes impacientes viram pó como pó os outros viram, mesmo que lutem para virar algo mais honrado. Não nos importa se a capa de nossa partitura seja dura e com escritos em dourado. Não nos importa nem a própria partitura, nem as medalhas que ganhamos no campeonato de natação, nem o que estudamos, bebemos ou fumamos. Resta a nós sermos atores de um roteiro escrito por nós para nós mesmos. Basta fechar a cortina de nosso grande espetáculo. Desmontar os trilhos e seguir a pé a encontro de algum destino compositor de um teatrinho improvisado.


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