22.11.06

 

Meu amigo do dente de cavalo

Já o conheço a mais de dois anos. Outros o conhecem a quatro. Volta dia, bate aqui em casa. Já trouxe até um presente – um dente de cavalo! Outro dia falamos de efeitos sonoros interplanetários que elucidam habitats como o que nos encontramos e também comemos sanduíches e conversamos no meio da rua. Eu sei que ele mora perto, mas não sei quanto porque não sei onde mora.

Meu primeiro trabalho como jornalista, eu só consegui, porque ele – na época ainda um desconhecido para mim - se demitiu. Até tivemos uma conversa sobre o valioso posto de trabalho – carregar ofícios importantes. Ele foi simpático, me desejou sorte. Quando virei para perguntar mais alguma coisa – tinha sumido feito mago.

Um dia, após encontro casual na rua de casa, com uma cerveja na mão, ele me contou que tem 25 anos e uma irmã de 29. Foi mais ou menos por essa troca de palavras que ficamos inseparáveis amigos. Parceiro para toda e súbita hora. Antes disso, o conhecia como o cara que passa no sentido contrário da rua e chamava-o de Costinha, por que já ouvi alguém chama-lo assim.

Vizinhos, colegas de trabalho e agora amigos. Com esse grau de intimidade, poderia até seu nome completo. Nesta interrogação regular de toda nossa vida burocrática, a resposta voltou até mim com ar de extraordinário devido a importante notícia que seu nome não tem nada a ver com Costa. É Gládison Pires! Mesmo nome que há muito tempo vejo na minha caixa de e-mails e sites de intenet, e sempre perguntava - Quem é esse cara?

Essa rede de absurdos enigmas criou um suspense em torno do real nome de Costinha – Gládison. Um dia me deparei com sua carteira identidade – estava lá, encravado: Hádison Pereira Rodrigues de Gusmão. Por trás de tantas facetas, não tinha a noção de quem era este cara que aparecia e sumia todos os dias, que me tratava como amigo e até já tinha me dado um presente! O que se figurava dele era composto por uma multidentidade, formado pelo pluralismo de etnias, personalidades e correntes de pensamentos. Uma porosa construção inacabada – semelhante a uma prosa sem compromisso. A materialização psicológica de pensamentos e análises teóricos que citam a identidade não como concisa e única, mas sim, fragmentada - deslocada pela expansão da modernidade esmagadora de fronteiras.

Entretanto tantos entretantos, meu amigo do dente de cavalo se posta a mercê destes rótulos teóricos. Segue normal, igual a todo dia, como meu amigo, por mais múltiplo que possa ser e mais enigmático possa se portar.

Na verdade, acho que o problema é comigo.