Aquela projeção dogmática...aquela certeza etérea, aquela extremidade, aquele tesão - essa ruptura. Essa falta de amor, ele que te entorpecia. Ele que acenava, que ia a fundo nos poros, que admirava com certa timidez adolescente. Esse clichê é tão efêmero...
Sentido sul, sempre sul. Passando pela serra, depois que a vegetação escasseia, depois que o clima inebria, chega-se a uma estrada aberta no deserto, mão-dupla, com a ida livre e a volta completamente engarrafada. Ao cabo de várias milhas, surge a enorme depressão, preenchida por uma névoa escura, de modo que a sensação é de adentrar num buraco negro. É Fossa, a cidade triste - e dizem seus moradores ser perene o breu.
A Fossa é anárquica. Isso porque a única tentativa de democratizar o condado resultou no suicídio de todos os que assumiam a prefeitura - pior do que viver na Fossa é ter de administrá-la. Dessa forma, a organização social delineia-se de forma absolutamente aleatória e caótica. Combinam-se conspirações no burburinho dos depressivos, inocula-se amargura nas ruas - em seringas contaminadas, migalhas de auto-estima dilacerada são devoradas do chão.
Ainda assim, num bantustão isolado de dor, o fluxo de turistas é intenso durante o ano todo. Fossa é a Meca do eu melancólico em cada ser, e a passagem por ela é circunstancial ou proposital. É comum a aquisição do “pacote Fossatur”: centro histórico, monumentos, sessão de pranto histérico, sessão de pranto brando, fim-de-semana de solidão. Um pouquinho de Fossa, e a cicatriz no free shop ou na feirinha de artesanato, por uns três dólares, talvez menos. Souvenir.
Também aparecem os mochileiros da Fossa, que procuram conhecê-la mais a fundo, e senti-la em sua totalidade. A periferia, a esquina da confeitaria, o espelho d’água, a ruela esquecida entre duas avenidas, os becos mais obscuros, a senhora à janela que tenta, curiosamente, esboçar um meio-sorriso - o louco anseio de sair da Fossa a qualquer custo, apesar do magnetismo inexplicável que o solo da cidade exerce sobre quem a visita.
Mas, é claro, não esqueçamos dos residentes da Fossa. Eles, que por toda a vida coexistem nesse espaço sob a pressurização constante do que chamamos de sofrimento. Eles que choram ao comprar o jornal, eles que se auto-flagelam na fila do banco, eles que vão rastejando ao local de trabalho. Eles que, diariamente, transformam seus sonhos em projéteis agudos para uma guerrilha urbana, e os atiram uns contra os outros. Eles que foram fagocitados pelas suas próprias resignações.
Da passagem pela Fossa, o que intriga é sair de lá tendo a certeza do retorno, breve ou não. Há quem se iluda, se preserve, evite ao máximo as intensidades que possam levar à cidade, mas não tem jeito. Quando se dão conta, já se uniram aos milhões que agonizam às ruas tristes-cheias-vazias de Fossa.