14.8.06
Somos reaça
Chega-se ao desamor da ignorável via crucis que, em berrantes tapas na cara, designa a opção de nos pregar em encruzilhadas de uma esperançosa fuga da realidade. Principalmente porque, quanto mais enraizamos destinos, nos fechamos a outras fugas.
Hoje vivemos assim - nos suplicando pelo egoísmo. Pelo consumismo. Pelo yoga. Pela tarde no shopping center. Por calças de veludo da última estação. Pelo fumo. Pela pedra. Pela universal. Quadrangular. Batista. Católica. Mundial. Episcopal. Por outros deuses. Pela pena de morte. Por calabouços humanos da idade média. Pelo fim de bandidos malfeitores da sociedade, compadres dos designados a ser benfeitores, estes escolhidos pelos escolhidos que o povo escolheu.
Pois que seja bem aventurada a alma que consegue manter a racionalidade com esta costumeira fila continua de compromissos e deveres. Tudo isto potencializado por cada imprestável fração de tempo que se permanece comprometido em viver esta forma de existência.
Os fragmentos deixados ao longo dos anos fragilizam todo o empreendimento que também não alcança o superávit no mercado de influências e poderes. Através dos convergentes de informação e do domínio do suculento capital, se dita a exploração sem papel passado, o império sobre a colônia - tudo para render lucros e bons rangos para seres egoístas iguais a você. No melhor hitlerismo da expressão “raça superior”.
E com isso vende-se a idéia. Vende-se a possibilidade de termos o dom de dizer o que é certo e do que é errado. Vende-se o direito de querer matar um malfeitor da sociedade, sendo este comparsa de outro malfeitor escolhido por outro malfeitor escolhido por você – homem de bem.
Homem pilar da sociedade justa e honesta que busca sua fuga da realidade na sabedoria. Nas boas férias. Nos amigos. Na igreja. Na bebida. Nos antidepressivos. No fumo. Na pedra. No roubo. Se precisar, na morte.
Condena-se a si próprio – atola-se uma bala nos miolos da consciência humanitária. Feito proteção contra o grande mal, vagabundo culto da hipocrisia constrói muro de conceitos infundados; de deduções sem lógica fielmente pesquisada nos mais indevidos achismos.
Eternas cavaletas - mais profundas pelas pós-modernas tendências de homogeneização da sociedade, da ultraglobalização e da crise da identidade cultural - remontam a sociedade da diferença; das pequenas tribos de estilos. Um panorama da realidade em que achamos que podemos achar que alguém merece morrer. Tudo para defender o seu próprio umbigo.

