24.3.07
idiota
Vira-se pra esquerda e logo se depara com os restos das noites passadas - confluências banais de risos desesperados para serem libertos. O estagnado se coloca logo ali, degustando seu tempo, à direita. De detalhes conscientes restam somente as tonturas necessárias para suportar a escassez de paciência, remodelada por esse ímpeto de subverter tudo e por esta implicância de dias mal vividos. Esses detalhes se situam no centro, colocados um a um em uma mistura de sussurros agonizantes de controle da razão oriundos das mais desconexas sensações. Ao deparar os detalhes, emerge a naufraga astúcia desflorada do dia anterior e encurrala o enjaulado momento de se colocar existência para os fatos.
24.2.07
Fossa
Aquela projeção dogmática...aquela certeza etérea, aquela extremidade, aquele tesão - essa ruptura. Essa falta de amor, ele que te entorpecia. Ele que acenava, que ia a fundo nos poros, que admirava com certa timidez adolescente. Esse clichê é tão efêmero...
Ainda assim, num bantustão isolado de dor, o fluxo de turistas é intenso durante o ano todo. Fossa é a Meca do eu melancólico em cada ser, e a passagem por ela é circunstancial ou proposital. É comum a aquisição do “pacote Fossatur”: centro histórico, monumentos, sessão de pranto histérico, sessão de pranto brando, fim-de-semana de solidão. Um pouquinho de Fossa, e a cicatriz no free shop ou na feirinha de artesanato, por uns três dólares, talvez menos. Souvenir.
22.11.06
Meu amigo do dente de cavalo
Já o conheço a mais de dois anos. Outros o conhecem a quatro. Volta dia, bate aqui
Meu primeiro trabalho como jornalista, eu só consegui, porque ele – na época ainda um desconhecido para mim - se demitiu. Até tivemos uma conversa sobre o valioso posto de trabalho – carregar ofícios importantes. Ele foi simpático, me desejou sorte. Quando virei para perguntar mais alguma coisa – tinha sumido feito mago.
Um dia, após encontro casual na rua de casa, com uma cerveja na mão, ele me contou que tem 25 anos e uma irmã de 29. Foi mais ou menos por essa troca de palavras que ficamos inseparáveis amigos. Parceiro para toda e súbita hora. Antes disso, o conhecia como o cara que passa no sentido contrário da rua e chamava-o de Costinha, por que já ouvi alguém chama-lo assim.
Vizinhos, colegas de trabalho e agora amigos. Com esse grau de intimidade, poderia até seu nome completo. Nesta interrogação regular de toda nossa vida burocrática, a resposta voltou até mim com ar de extraordinário devido a importante notícia que seu nome não tem nada a ver com Costa. É Gládison Pires! Mesmo nome que há muito tempo vejo na minha caixa de e-mails e sites de intenet, e sempre perguntava - Quem é esse cara?
Essa rede de absurdos enigmas criou um suspense em torno do real nome de Costinha – Gládison. Um dia me deparei com sua carteira identidade – estava lá, encravado: Hádison Pereira Rodrigues de Gusmão. Por trás de tantas facetas, não tinha a noção de quem era este cara que aparecia e sumia todos os dias, que me tratava como amigo e até já tinha me dado um presente! O que se figurava dele era composto por uma multidentidade, formado pelo pluralismo de etnias, personalidades e correntes de pensamentos. Uma porosa construção inacabada – semelhante a uma prosa sem compromisso. A materialização psicológica de pensamentos e análises teóricos que citam a identidade não como concisa e única, mas sim, fragmentada - deslocada pela expansão da modernidade esmagadora de fronteiras.
Entretanto tantos entretantos, meu amigo do dente de cavalo se posta a mercê destes rótulos teóricos. Segue normal, igual a todo dia, como meu amigo, por mais múltiplo que possa ser e mais enigmático possa se portar.
Na verdade, acho que o problema é comigo.
31.10.06
Sobre um filme que não existe
brios e fluidos e voláteis
Eu não sabia.
Respaldo voraz, distrofia
E aquela maldita sifilítica memória
...dissipa.;;;
Gotas de mimetismo
Sacrilégio, Versace, picolé de
--lágrimas
E tudo segue o ciclo seu ci-
clo
etéreo
%.....
8.10.06
Seu Pires vai fazer sexo
Uma barraca é um acessório indispensável para a relação sexual de Seu Pires com sua esposa. Por isso, o habitante do piso superior busca a estrutura de lona na casa de Manga. Toda dia de sexo marcado no calendário, ele monta a barraca do Seu Manga exatamente na área delimitada ao centro da espaçosa sala de estar de sua residência. As oito lajotas de azulejo púrpura. Ao redor, a disposição dos móveis é geométrica: sofá encostado na parede; a televisão do lado oposto; a mesa-de-jantar suportando a cesta com frutas de cera já mastigadas; a cômoda que fica em frente à janela e suporta a imagem de Santo Antônio - sempre virada de costas antes do pecado ser consumado.
Já chegava meia-noite, o horário devidamente estabelecido para a conjunção carnal. O patriarca da família Pires retira lentamente sua calça jeans gasta, depois retira sua bermuda de banho íntima. Seu Pires trajava uma linda samba-canção, enquanto Dona Pires usava o mesmo baby-doll desde a lua-de-mel, na bucólica e pacata Cananéia. No ato, em movimentos contínuos e repetidos de vai-e-vem, Seu Pires e Dona Pires revezavam o lugar no espaço. O silêncio era entrecortado por alguns gritos serenos de Dona Pires, que Seu Pires calava por providência. Ele não queria que os vizinhos ouvissem a felação. O gozo vinha em hora programada, Pires tinha tudo calculado, o tempo exato em que os dois, devido ás suas condições psicológicas, iriam alcançar o ponto de intensidade sexual máximo. O chefe dos Pires morde o mesmo chinelo - já todo roído - e cospe-o para fora da barraca. Após o trabalho do mês feito, Dona Pires vira-se de lado e adormece pensando no grande marido que tem. Seu Pires toma o lado oposto, acende seu cachimbo e pensa nas begônias da floreira, que ele teima em regar todos os dias.
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26.9.06
T. Pires
o própolis