24.3.07

 

idiota

Vira-se pra esquerda e logo se depara com os restos das noites passadas - confluências banais de risos desesperados para serem libertos. O estagnado se coloca logo ali, degustando seu tempo, à direita. De detalhes conscientes restam somente as tonturas necessárias para suportar a escassez de paciência, remodelada por esse ímpeto de subverter tudo e por esta implicância de dias mal vividos. Esses detalhes se situam no centro, colocados um a um em uma mistura de sussurros agonizantes de controle da razão oriundos das mais desconexas sensações. Ao deparar os detalhes, emerge a naufraga astúcia desflorada do dia anterior e encurrala o enjaulado momento de se colocar existência para os fatos.


24.2.07

 

Fossa

Aquela projeção dogmática...aquela certeza etérea, aquela extremidade, aquele tesão - essa ruptura. Essa falta de amor, ele que te entorpecia. Ele que acenava, que ia a fundo nos poros, que admirava com certa timidez adolescente. Esse clichê é tão efêmero...

Sentido sul, sempre sul. Passando pela serra, depois que a vegetação escasseia, depois que o clima inebria, chega-se a uma estrada aberta no deserto, mão-dupla, com a ida livre e a volta completamente engarrafada. Ao cabo de várias milhas, surge a enorme depressão, preenchida por uma névoa escura, de modo que a sensação é de adentrar num buraco negro. É Fossa, a cidade triste - e dizem seus moradores ser perene o breu.

A Fossa é anárquica. Isso porque a única tentativa de democratizar o condado resultou no suicídio de todos os que assumiam a prefeitura - pior do que viver na Fossa é ter de administrá-la. Dessa forma, a organização social delineia-se de forma absolutamente aleatória e caótica. Combinam-se conspirações no burburinho dos depressivos, inocula-se amargura nas ruas - em seringas contaminadas, migalhas de auto-estima dilacerada são devoradas do chão.

Ainda assim, num bantustão isolado de dor, o fluxo de turistas é intenso durante o ano todo. Fossa é a Meca do eu melancólico em cada ser, e a passagem por ela é circunstancial ou proposital. É comum a aquisição do “pacote Fossatur”: centro histórico, monumentos, sessão de pranto histérico, sessão de pranto brando, fim-de-semana de solidão. Um pouquinho de Fossa, e a cicatriz no free shop ou na feirinha de artesanato, por uns três dólares, talvez menos. Souvenir.

Também aparecem os mochileiros da Fossa, que procuram conhecê-la mais a fundo, e senti-la em sua totalidade. A periferia, a esquina da confeitaria, o espelho d’água, a ruela esquecida entre duas avenidas, os becos mais obscuros, a senhora à janela que tenta, curiosamente, esboçar um meio-sorriso - o louco anseio de sair da Fossa a qualquer custo, apesar do magnetismo inexplicável que o solo da cidade exerce sobre quem a visita.

Mas, é claro, não esqueçamos dos residentes da Fossa. Eles, que por toda a vida coexistem nesse espaço sob a pressurização constante do que chamamos de sofrimento. Eles que choram ao comprar o jornal, eles que se auto-flagelam na fila do banco, eles que vão rastejando ao local de trabalho. Eles que, diariamente, transformam seus sonhos em projéteis agudos para uma guerrilha urbana, e os atiram uns contra os outros. Eles que foram fagocitados pelas suas próprias resignações.

Da passagem pela Fossa, o que intriga é sair de lá tendo a certeza do retorno, breve ou não. Há quem se iluda, se preserve, evite ao máximo as intensidades que possam levar à cidade, mas não tem jeito. Quando se dão conta, já se uniram aos milhões que agonizam às ruas tristes-cheias-vazias de Fossa.


22.11.06

 

Meu amigo do dente de cavalo

Já o conheço a mais de dois anos. Outros o conhecem a quatro. Volta dia, bate aqui em casa. Já trouxe até um presente – um dente de cavalo! Outro dia falamos de efeitos sonoros interplanetários que elucidam habitats como o que nos encontramos e também comemos sanduíches e conversamos no meio da rua. Eu sei que ele mora perto, mas não sei quanto porque não sei onde mora.

Meu primeiro trabalho como jornalista, eu só consegui, porque ele – na época ainda um desconhecido para mim - se demitiu. Até tivemos uma conversa sobre o valioso posto de trabalho – carregar ofícios importantes. Ele foi simpático, me desejou sorte. Quando virei para perguntar mais alguma coisa – tinha sumido feito mago.

Um dia, após encontro casual na rua de casa, com uma cerveja na mão, ele me contou que tem 25 anos e uma irmã de 29. Foi mais ou menos por essa troca de palavras que ficamos inseparáveis amigos. Parceiro para toda e súbita hora. Antes disso, o conhecia como o cara que passa no sentido contrário da rua e chamava-o de Costinha, por que já ouvi alguém chama-lo assim.

Vizinhos, colegas de trabalho e agora amigos. Com esse grau de intimidade, poderia até seu nome completo. Nesta interrogação regular de toda nossa vida burocrática, a resposta voltou até mim com ar de extraordinário devido a importante notícia que seu nome não tem nada a ver com Costa. É Gládison Pires! Mesmo nome que há muito tempo vejo na minha caixa de e-mails e sites de intenet, e sempre perguntava - Quem é esse cara?

Essa rede de absurdos enigmas criou um suspense em torno do real nome de Costinha – Gládison. Um dia me deparei com sua carteira identidade – estava lá, encravado: Hádison Pereira Rodrigues de Gusmão. Por trás de tantas facetas, não tinha a noção de quem era este cara que aparecia e sumia todos os dias, que me tratava como amigo e até já tinha me dado um presente! O que se figurava dele era composto por uma multidentidade, formado pelo pluralismo de etnias, personalidades e correntes de pensamentos. Uma porosa construção inacabada – semelhante a uma prosa sem compromisso. A materialização psicológica de pensamentos e análises teóricos que citam a identidade não como concisa e única, mas sim, fragmentada - deslocada pela expansão da modernidade esmagadora de fronteiras.

Entretanto tantos entretantos, meu amigo do dente de cavalo se posta a mercê destes rótulos teóricos. Segue normal, igual a todo dia, como meu amigo, por mais múltiplo que possa ser e mais enigmático possa se portar.

Na verdade, acho que o problema é comigo.


31.10.06

 

Sobre um filme que não existe

E lástava eu e meus edredons iné-
brios e fluidos e voláteis
Eu não sabia.
Respaldo voraz, distrofia
E aquela maldita sifilítica memória
...dissipa.;;;
Gotas de mimetismo
Sacrilégio, Versace, picolé de
--lágrimas
E tudo segue o ciclo seu ci-
clo
etéreo
%.....

8.10.06

 

Seu Pires vai fazer sexo

Seu Pires vai fazer sexo. Mas para ele - só se tiver chinelo na boca. O mais imprescindível para esse momento egum-satisfactum. Com tantos anos passados, o sexo para Seu Pires tornou-se algo com data marcada no calendário - para que ele possa se preparar, obviamente. Todo mês, Seu Pires e Dona Pires sentam para acertar as contas, e agenda-se a quantidades de vezes que o casal vai transar no mês. Cada dia que se antecipa a relação sexual, Seu Pires, à noite, sai de seu acomodado apartamento 57 para visitar seu vizinho, Seu Manga. Manga tem duas esposas e elas vivem tranquilamente juntas. No apartamento 37, Manga reserva um quarto para cada uma - e elas dividem o banheiro. Há dez anos, Seu Manga dorme em um quarto diferente a cada noite. Seu Pires acha inusitado ter esse tipo de relação sexual, mas não recrimina. Seu Manga é companheiro e simpático - sempre ajuda seus amigos e, lógico, parceiro das cervejinhas no boteco do Seu Manuel, vascaíno fanático.

Uma barraca é um acessório indispensável para a relação sexual de Seu Pires com sua esposa. Por isso, o habitante do piso superior busca a estrutura de lona na casa de Manga. Toda dia de sexo marcado no calendário, ele monta a barraca do Seu Manga exatamente na área delimitada ao centro da espaçosa sala de estar de sua residência. As oito lajotas de azulejo púrpura. Ao redor, a disposição dos móveis é geométrica: sofá encostado na parede; a televisão do lado oposto; a mesa-de-jantar suportando a cesta com frutas de cera já mastigadas; a cômoda que fica em frente à janela e suporta a imagem de Santo Antônio - sempre virada de costas antes do pecado ser consumado.

Já chegava meia-noite, o horário devidamente estabelecido para a conjunção carnal. O patriarca da família Pires retira lentamente sua calça jeans gasta, depois retira sua bermuda de banho íntima. Seu Pires trajava uma linda samba-canção, enquanto Dona Pires usava o mesmo baby-doll desde a lua-de-mel, na bucólica e pacata Cananéia. No ato, em movimentos contínuos e repetidos de vai-e-vem, Seu Pires e Dona Pires revezavam o lugar no espaço. O silêncio era entrecortado por alguns gritos serenos de Dona Pires, que Seu Pires calava por providência. Ele não queria que os vizinhos ouvissem a felação. O gozo vinha em hora programada, Pires tinha tudo calculado, o tempo exato em que os dois, devido ás suas condições psicológicas, iriam alcançar o ponto de intensidade sexual máximo. O chefe dos Pires morde o mesmo chinelo - já todo roído - e cospe-o para fora da barraca. Após o trabalho do mês feito, Dona Pires vira-se de lado e adormece pensando no grande marido que tem. Seu Pires toma o lado oposto, acende seu cachimbo e pensa nas begônias da floreira, que ele teima em regar todos os dias.

Conheça o maior site de sexo grátis da america latina, há 5 anos na internet conquistando os usuarios. Fotos Amadoras, orgia, gatinhas 18 anos, sexo anal, oral, bizarras, lesbicas, travesti, gays, várias horas de vídeos grátis grátis!

26.9.06

 

T. Pires

Eu sou eu
o própolis

18.9.06

 

Saudades porteñas

A/C

Para agradar uma pessoa não se precisa muita coisa: tres chicas graciosas, un rato no bosque, um gramado em uma tarde de sol, unas cervezas acompanhadas por uma mentirinha australiana, um rabisco em forma de poesia, duas palavras de afeto. Coisas de todos os dias - com a gente se tornam diferentes.